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01/10/2006 22:30
Façamos nos, com nossas mãos, tudo o que a nós nos diz respeito
(A Internacional, hino dos comunistas do mundo todo... Por que hoje é dia, não é?)
Comecei a fazer movimento estudantil em 1998, quando conheci um grupo de incendiários que se reuniam no Centro Acadêmico de Ciências Sociais da UFRJ. Essas pessoas me salvaram de ser uma patricinha medíocre, me ensinaram a ser crítica, e talvez, mais importante de tudo, não permitiram que a faculdade atrapalhasse meus estudos. Hoje, porém, experimentei um sentimento muito triste. Primeira vez em oito anos em que não fui feliz votar, em que não fiz campanha. Tentei pôr a culpa na mudança que fiz ano passado, quando optei por continuar sendo comunista, mas fora do partido comunista (quem é marxista leninista sabe da importância de fazer parte de uma organização revolucionária, mas essa é outra história). Depois, pus a culpa em tudo o que tem acontecido na minha vida... E não foi pouca coisa. Mas, na verdade, eu simplesmente estou experimentando a enorme sensação de desesperança que deu a cor dessa eleição. Não porque aja corrupção num governo que eu ajudei a eleger (e continuo reelegendo...), não pela falta do crescimento que eu queria pro país, não por essa política econômica equivocada... Minha desesperança bate quando entendo a decepção de um povo que continua querendo eleger o Novo Messias, o Salvador da Pátria... E nunca tem coragem de ser protagonista. Nosso povo, nós mesmos, estamos acostumados com a representação, com ter alguém que vai resolver nossos problemas... E nunca vemos que esse alguém somos nós mesmos. Todo mundo reclama o tempo todo, mas ninguém corre atrás. Me senti mal por ter me acomodado nessa eleição, muito mal. Mas hoje vi a minha cidade, eternamente de ruas sujas, festejando sua ingerência. Que medo que me dá, essas pessoas, tantas da minha idade ou mais novas, que se consideram herdeiras dessa loucura que é um Estado que se dissolve, ao invés de se considerarem construtoras do seu próprio futuro. Eu e meu país, hoje, estamos num momento muito parecido: também esperei alguém que me salvasse, também quis que alguém assumisse responsabildade sobre mim. Estou consertando meu rumo. Espero que minha pátria amada, minha patriazinha, também...
Esse post vai ficar enorme, mas vale a pena... Leiam. É tão doce esse poema...
Pátria Minha
Vinícius de Moraes
A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.
Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.
Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!
Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!
Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.
Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...
Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!
Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.
Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.
Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.
Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.
Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes."
enviada por Mah
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